sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Estrela (02/01/2026)
O nome dela era Estrela — ou, pelo menos, tornou-se com os meses, à medida que foi se descobrindo, se revelando, se afirmando, estreando no próprio corpo.
Antes disso, chegou Alexander.
Arredio, curioso, atento. Pisava em ovos, com medo de que descobrissem cedo demais aquilo que ele próprio ainda tateava. Precisava sentir o terreno, perceber se o lugar era mesmo tudo aquilo que diziam.
Essa escola é diferente, repetiam. Aqui os alunos têm vez, voz e voto, gostava de dizer a diretora. Mas dela falaremos depois. Agora é preciso falar de Estrela — ou melhor, ainda de Alexander.
Ele não sabia se ia se enturmar, se podia confiar. Já sofrera demais na última escola do bairro. Aprendera que não era em qualquer lugar que se podia existir inteiro.
Alexander começou colocando as asas para fora timidamente. Primeiro, um leve brilho nos lábios.
— Que isso? — perguntou um menino que também havia chegado há pouco à escola.
— É brilho labial. Quer usar? — respondeu, com a voz firme, apesar do coração acelerado.
— Não.
E o menino se calou. Não por convencimento, mas porque os outros intervieram. Quem era de casa defendeu.
— Aqui você pode ser você.
Mesmo assim, Alexander permaneceu atento. Não seria tão simples. Nunca fora. Em lugar nenhum. A sociedade era preconceituosa — pensava — e não baixava a guarda com facilidade.
Os dias foram passando. Os projetos acontecendo. E, a cada um deles, ele colocava um pouco mais o pé na água, testando a temperatura.
— Diretora — disse um aluno certa vez —, você viu que o Alexander está usando batom vermelho?
— Vi. Qual o problema?
O menino se calou. E com ele, todos os outros que pensaram, mas não ousaram mais dizer.
Até que veio o primeiro grande evento: a festa à fantasia.
Fantasia é fantasia. Cada um escolhe ser o que quiser.
Naquela noite, Alexander decidiu que não queria mais ser apenas Alexander. Teve coragem — e tem até hoje. Colocou salto, vestiu um vestido vermelho colante, colou o medo no fundo da gaveta e dançou como nunca. Pela primeira vez, não pediu licença ao próprio corpo.
E, a partir daquele dia, quando alguém perguntava seu nome, ela respondia radiante:
— Meu nome é Estrela.
E era.
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