sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Bosque II

Puljante beleza a do bosque florido,
Beleza cortante, ora uivante, viva.
Arbustos em festa falam aos pássaros.
Coisas de vida serão os dizeres?

Logo formigas ouço cerca,
Provável reclamam dos homens do mundo,
Perdidos que estão buscando o poder.
Será não enxergam, a frente lhe mostra,
Ser feliz cada dia, comer e beber?

Simples se faz, felicidade perdida,
Que buscam os homens aqui e acolá.
Embora ignoram, tristeza arredia,
Viver dia-a-dia, sorrir e amar.

Não queira,oh Deus, deixar-nos a esmo.
Perdoa cegueira, culpada terrível.
Pois filhos lhe somos, a alma lhe é.
Bendito, Bondoso, salva-nos!

(divagando no Bosque do Buritis - Goiânia/2007)

Estrela (02/01/2026)

O nome dela era Estrela — ou, pelo menos, tornou-se com os meses, à medida que foi se descobrindo, se revelando, se afirmando, estreando no próprio corpo. Antes disso, chegou Alexander. Arredio, curioso, atento. Pisava em ovos, com medo de que descobrissem cedo demais aquilo que ele próprio ainda tateava. Precisava sentir o terreno, perceber se o lugar era mesmo tudo aquilo que diziam. Essa escola é diferente, repetiam. Aqui os alunos têm vez, voz e voto, gostava de dizer a diretora. Mas dela falaremos depois. Agora é preciso falar de Estrela — ou melhor, ainda de Alexander. Ele não sabia se ia se enturmar, se podia confiar. Já sofrera demais na última escola do bairro. Aprendera que não era em qualquer lugar que se podia existir inteiro. Alexander começou colocando as asas para fora timidamente. Primeiro, um leve brilho nos lábios. — Que isso? — perguntou um menino que também havia chegado há pouco à escola. — É brilho labial. Quer usar? — respondeu, com a voz firme, apesar do coração acelerado. — Não. E o menino se calou. Não por convencimento, mas porque os outros intervieram. Quem era de casa defendeu. — Aqui você pode ser você. Mesmo assim, Alexander permaneceu atento. Não seria tão simples. Nunca fora. Em lugar nenhum. A sociedade era preconceituosa — pensava — e não baixava a guarda com facilidade. Os dias foram passando. Os projetos acontecendo. E, a cada um deles, ele colocava um pouco mais o pé na água, testando a temperatura. — Diretora — disse um aluno certa vez —, você viu que o Alexander está usando batom vermelho? — Vi. Qual o problema? O menino se calou. E com ele, todos os outros que pensaram, mas não ousaram mais dizer. Até que veio o primeiro grande evento: a festa à fantasia. Fantasia é fantasia. Cada um escolhe ser o que quiser. Naquela noite, Alexander decidiu que não queria mais ser apenas Alexander. Teve coragem — e tem até hoje. Colocou salto, vestiu um vestido vermelho colante, colou o medo no fundo da gaveta e dançou como nunca. Pela primeira vez, não pediu licença ao próprio corpo. E, a partir daquele dia, quando alguém perguntava seu nome, ela respondia radiante: — Meu nome é Estrela. E era.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Aula de Português


Nunca esquecerei aquele dia.
Geraldo dava uma aula de Português na 5a. série.Aquele professor parecia um anjo! Aquela voz doce, aquele olhar de ternura azul...
Sua voz calma empenhava-se em arrancar da turminha a interpretação da ironia em uma notícia sobre o índice de leitura no Brasil. "Penúltimo lugar", dizia a pesquisa. Nunca imaginei que meninos daquela idade poderiam ser tão sagazes com a língua portuguesa. Salve Geraldo!

quarta-feira, 30 de março de 2011

A crise na Educação é a crise do Homem.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Paráfrase da "Família" de Drummond

Quatro meninas e dois meninos
Sendo caçula uma menininha
O papai, a madrasta
O cachorro, o gatinho, a tartaruguinha
A casa com jardim e horta
E a saudade da mãe verdadeira

Os quartos, os móveis, os tapetes
Os quadros, as cartas, a oração
O passeio na tarde de domingo
As brincadeiras, a algazarra
O sono que toma conta da casa
E a saudade da mãe verdadeira

E a saudade da mãe verdadeira
A escola, os deveres do dia
Os pedidos de brinquedos da moda
desejados e mas nunca recebidos
E a saudade da mãe verdadeira
A saudade...
(Aula de leitura e redação 03/04/1998)

Rosa

La rosa que me imagino
nos es como las otras
que unen el bien y el mal
en forma de espinas y ternura

Esa rosa, que me imagino,
no atrae al amante enamorado
pues ese quiere la que es igual
y mi rosa no se asemeja a nada

Tiene color de deseo
y olor de alegría
si la tocas sientes frio
si te alejas, desespero

No hay como cogerla en las manos
pues no pesee talo
hay que imaginarla con tu miente
así siempre la tendrás

Esa es la rosa que yo hice
Tome una para ti
ella no brota en otro sitio
sino donde uno la quiere.

O Bosque

Urge-me o papel!
Obrigatório me foi parar neste bosque no centro da cidade para descrever o que me diziam os pássaros.
Parece que choram...uma reclamação repetida e indignada.
Cansam-se, creio, por fazerem-se ouvidos. De mim, creio, reclamam atenção. Não só a si, que de longe são egoistas como nós, mas ao mundo que, abandonado que está, sofre com os desígnos humanos.
Donde o apreço à Natureza?Donde o amor?
Sujeira e descaso o que se vislumbra.
Indiferença cortante dos passantes. Insensibilidade dos que permanecem. Cada qual no seu plano, sua mente...
(...)
Indigna-me, mulher que sou, os olhares nefastos de outrem que, em face de tão puljante beleza o espaço oferece, sobre mim os põe, provalvelmente guiados por pensamentos escusos.
Oh, vã sensualidade!Oh, pobres seres obtusos!
Respiro.
A compreensão me acalma para volver a escutar os pássaros.
Quisera eu dizer-lhes que os amo. Quisera eu mergulhar junto aos patos que, sobre a água imunda do lago seguem altivos...
Enfim, quisera eu aqui ficar, pero o dia cai e já é hora.